30/06/2010
Inconfundível sotaque do poeta do forró
noticia
Do Diário de Pernambuco

Michelle de Assumpção - 17/06/10


Debaixo do chapéu de Maciel Melo cabem batidas e temáticas variadas do forró. Foi por isso que, por pouco, o nome do seu novo disco não virou Mochila de cego (que cabe tudo dentro). Até frevo pensou em gravar. Terminou que a canção Duas caravelas, um xote moderno, primeira parceria com Geraldo Azevedo, conduziu a criação das demais poesias. Maciel juntou todas as inéditas, decidiu lançar o disco que a princípio estava fora de cogitação para este ano e o batizou de Debaixo do meu chapéu. Pois há aí também interpretações variadas, além da literal, pois o objeto é amigo inseparável do cantor e compositor, desde quando era cantador no Sertão de Iguaraci.

Cantor de sotaque inconfundível e letras preciosas, Maciel é um dos mais festejados compositores de forró da nova geração. Ele não gosta, no entanto, de se dizer do pé-de-serra. "Cante lá que eu canto cá", cita Patativa do Assaré para justificar a preferência pela cobertura da aba do seu próprio chapéu e nãopelo balaio que junta uma determinada turma dentro de um mesmo estilo. Maciel conta que, quando compôs Caboclo sonhador - espécie de ponta-de-lança do forró sertanejo conectado com a cantoria e estruturas mais elaboradas - queria se juntar aos compositores sérios do forró que estavam começando a aparecer, tais como Onildo Almeida, João Silva e Accioly Neto.

"Eu precisava me juntar a eles para ser útil, para que a gente não perdesse de vez nossa identidade. No meu forró peguei o que eu fazia na cantoria e trouxe. Por isso, as letras elaboradas. Botei sanfona, zabumba, triângulo, uma coisa mais dançante, mas uso guitarra, bateria, baixo, sax e flautas", conta Maciel. "Eu faço como um jazz no forró, não tenho esse folclorismo besta", reafirma.

Repertório - O disco começa com um maxixe, um samba de latada, e segue por ritmos variados do forró, com leituras também igualmente diversificadas. Derretendo a seda, faixa dois, também faz essa mescla de forró com gafieira, com direito a corinho repetindo os versos de Maciel e uma sanfona solando o tema principal. Depois Maciel apresenta o primeiro xote do álbum, Seu brinquedo. Tudo ou nada também é um xote romântico. Na faixa cinco um pour-pourri de arrasta-pé dá o clima junino do CD.

Genival Lacerda participa nessa mescla de Esquenta moreninha (Assisão), Noites brasileiras (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) e Aproveita gente (Onildo Almeida). Em Daquele jeito novamente sanfona sola a melodia e zabumba e demais percussões marcam a forma cadenciada do "dois pra lá e dois pra cá" do xote. Maciel regrava Tampa de pedra, uma dos mais bonitos xotes de sua autoria. "Ô de casa, ô de fora, uma esmolinha pra esse pobre bem querer, pode ser um beijo, pode ser aquela rosa, eu quero o cheiro do teu corpo no meu ser#". A participação de Paulinho Leite, na segunda parte, dimensiona a fama e consagração deste bonito xote.

Duas caravelas é a parceria de Maciel com Geraldo Azevedo. Foi daí, conta Maciel, que nasceu o disco. Geraldo mostrou a melodia, ele acrescentou a letra. O violão de nylon de Geraldo alivia a batida mais roots do xote, dando um tom de balada sertaneja à canção. Maciel retoma o clima forrozeiro com Toque mais um sanfoneirin, um arrasta-pé. A ponteira e o pião e Chororô, de Gilberto Gil, retomam a pisada do disco, ao todo, trabalhado nos temas mais românticos e lúdicos. Maciel encerra com uma valsa de sotaque junino, sanfona triste e canto lamentoso. A música era uma valsa instrumental de Luiz Gonzaga, letrada por Maciel para um CD tributo ao rei do baião.

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