A música de protesto tem sempre um lugar reservado em minhas composições, sem necessariamente ser panfletária, mesmo porque não vivenciei o auge da ditadura militar. Era muito menino na época. Além disso, lá no sertão de Iguaraci, os meios de comunicação eram precários e, como sempre, domina¬dos pelos manda-chuvas, que nunca choviam nada. Sempre dei minha opinião sobre as questões sociais, levantando a bandeira do povo de minha terra, hasteando sempre a coerência e o direito de cada cidadão, proclamando-os em versos como fiz, por exemplo, em "Meninos do sertão", uma letra minha em parceria com o poeta Petrúcio Amorim.
Pois é. Em meus versos, declamo, clamo e reclamo se preciso for. Defensor ferrenho dos meus ideais, sempre estive junto aos que lutam pelos seus direitos, e não escondo minha vontade de ver um dia um Brasil de fato e de direito como sempre sonhamos. Estive presente nos movimentos mais importantes de minha época: Movimento pelas diretas, nas campanhas que elevaram a classe trabalhadora, nos movimentos estudantis, já no finalzinho dos anos 70, enfim... "Continuo acreditando em tudo que apostei, não me arrependo de nada, faria tudo novamente. Sei que ainda existem pessoas sérias e capazes de honrar a crença sem tirar proveito da carência do povo brasileiro".
Meninos do Sertão
(Maciel Melo e Petrúcio Amorim)
Quando me lembro dos meninos do Sertão
Olho pro céu e vejo eu entre os pardais
Catando estrelas, desenhando a solidão
Ouvindo estórias de fuzis e generais
Lembrando rezas que aprendi no juazeiro
Que um violeiro me ensinou numa canção
Bebendo sonhos era assim o meu destino
Mais um menino na poeira do Sertão
Quando me lembro dos meninos do Sertão
Beijando flores era eu em meu jardim
Qual borboletas bailarinas de quintais
E um arco-íris de esperança só pra mim
E a liberdade feito um pássaro de seda
Voava alto nos planos de menino
Nas travessuras imitava os meus heróis
Luiz Gonzaga, Lampião e Vitalino
Quando me lembro dos meninos do Sertão
Vejo Hiroshima nos olhares infantis
Vejo a essência da desigualdade humana
Num verdadeiro calabouço dos guris
Meu coração bate calado enquanto choro
A Deus imploro mais carinho e atenção
Tirai a canga do pescoço dessa gente
Que só precisa de amor, trabalho e pão
Adeus meu carro de boi
Adeus pau de arara
No ano 2000 que mal virá
Cola, Carandirú, Candelária
Quando isso vai parar
Será que será sempre assim
Será que assim sempre será