José Manoel de Lemos Pereira
 
Remirando a Estrada

Meu primeiro contato com a música de Maciel Melo deu-se no início dos anos 1990, precisamente em 1991, no período junino daquele ano, em Sanharó - PE, caminhando pelas ruas da cidade, subitamente, saídos de um rádio ou vitrola de alguma daquelas residências, chegam até nós alguns trechos de um belo xote. Tratava-se da música “Que nem Vem-Vem” (Maciel Melo) na voz de Flávio José.
Pouco depois, tive o privilégio de conhecer pessoalmente o autor daquele xote, através do poeta e amigo comum Pedro Américo. Aquela altura, Maciel já estava com o pé na estrada há muitos anos, ‘desafiando as léguas’, - afinal de contas, o verdadeiro artista conhece sua alma e seu destino -, partira de sua Iguaraci para São Paulo, retornara para o Nordeste/Petrolina, estava batalhando em Recife, isso sem contar com as intermináveis andanças perambulando pelas povoações e palcos da vida.
A subida da ‘ladeira do sucesso’ começou em 1985 – ainda em São Paulo -, quando então o Quinteto Violado gravou no LP QUINTETO VIOLADO – RCA (Camden 107.0445) a composição “Erva Doce” (João Neto e Maciel Melo).
O passo seguinte foi gravar e lançar o tão sonhado disco solo – 1988. Sonho concretizado graças à determinação e inabalável força de vontade do artista, contando com a preciosa ajuda de vários amigos e colegas artistas ou não. O LP produzido pelo próprio Maciel Melo em Salvador de forma independente, possui repertório com a maioria das composições de sua autoria em parceria com o poeta Virgílio Siqueira – são canções ‘trovadorescas’ - e, contou com as participações especiais de Xangai, Dominguinhos, Vital Farias e Dércio Marques além da bela capa com desenho de Zé Lima e apresentação do poeta Pedro Américo. Com o ‘filho nos braços’, ou seja, o disco nas mãos, o artista partiu para mais uma dura batalha: tentar divulgar e comercializar seu produto. Imagine-se um ilustre desconhecido tentando vender um disco independente – sem apoio da mídia, sem logotipo e chancela de nenhuma das gigantescas fábricas de discos instaladas no país... O cabra tinha que ser ‘madeira de dar em doido’ ou então, ‘ter muita confiança no taco’.
Naquele meio-tempo, surge a idéia de desviar-se um pouco da sua linha mestra em relação ao estilo de compor e, dedicar-se mais ao gênero FORRÓ, afinal de contas, já era filho de sanfoneiro mesmo. Era só uma questão de adaptar-se ao estilo, pegar o jeito, caprichar e mandar lenha... Foi justamente o que aconteceu. Pra começar, nada melhor que o xote “Que nem Vem-Vem” cuja primeira versão gravada em 1990 por Bira Marcolino no LP “JEITO GOSTOSO”, (542.404.277) -, apresenta no refrão uma pequena diferença em relação à letra atual (na primeira versão aparece a frase... “Jacó do pandeiro é ÁS ”, posteriormente alterada pelo autor para... “Jackson do Pandeiro é ÁS” – para soar mais abrangente e universal). Em 1991 Flávio José transformaria esse xote no maior sucesso daquela temporada e em um clássico da música nordestina, gravando-o no LP “CHEIRO DE FORRO” Somax Produtora Ltda. (LP 471.037.) Essa música foi gravada no ano seguinte pela cantora Elba Ramalho no LP/CD “ENCANTO” Philips (512.416/1992), relançada na coletânea “O GRANDE FORRÓ DE ELBA RAMALHO”Globo/Polydor / Sigla (519.445-2) e gravada por seu autor no disco de 1995 “ALEGRIA DE NÓS DOIS” SomZoom (SZCD 035).
Em 1992 novamente Flávio José transforma uma grande composição em um grande sucesso. Trata-se do xote “Caboclo Sonhador” (Maciel Melo) que deu título e sucesso ao LP “CABÔCLO SONHADOR”, Polysom (60.002).
- Esse xote, ainda daria muito que falar!
- Numa daquelas inesquecíveis tardes de chope e bate-papo com a turma da Allegro Cantante, Maciel chega explodindo de alegria e vai logo dando a grande notícia para a turma: -“Fagner gravou duas músicas minhas”! - Referia-se ele às músicas Caboclo Sonhador (Maciel Melo) e “Nos Tempos de Menino” (Maciel Melo e Virgílio Siqueira), - e tem mais, dizia ele, o título do disco é CABÔCLO SONHADOR e, está sendo lançado nos Estados Unidos (no Brasil: LP RCA/BMG (150.0032 e CD 130.108); nos Estados Unidos: CD (743.212.0943-2). “Caboclo Sonhador” foi gravada por seu autor em 1999, no disco “JEITO MAROTO” - Kuarup Discos (KCD 118) e em 2001, no disco “ACELERANDO O CORAÇÃO” – (199.011.191).
Mais ou menos por essa época, Maciel teve que tomar uma delicada e difícil decisão. Recebera convite do grupo Emanuel Gurgel para trabalhar com exclusividade como compositor e intérprete. Aquele estilo musical estava ‘a léguas de distância’ do que ele considerava e idealizava como sendo a música que sempre pretendera fazer, interpretar, divulgar etc. Mas, havia outras razões em jogo e, afinal de contas, era sempre possível tentar-se colocar um pouco de sentimento e qualidade em qualquer estilo ou gênero musical. Falou mais alto o bom senso, além de ter conseguido obter recursos para equilibrar seus compromissos pessoais e profissionais, gravou um bom disco LP/CD -“ALEGRIA DE NÓS DOIS” - SomZoom – (SZCD – 035) - que, se não é um primor quanto ao seu formato estético/musical, nada deixa a desejar quanto ao conteúdo - seu repertório é extraordinário, seu título é uma referência à composição do seu pai Heleno Louro “Alegria de Nós Dois”, incluída no mesmo -, além de ter sido útil como forma de divulgação do compositor/intérprete em relação a ‘outros públicos’ e intérpretes.
Em 1995 mais uma grande alegria, a música “MENINOS DO SERTÃO” (Petrúcio Amorim e Maciel Melo) vence o 5º FESTIVAL CANTA NORDESTE da Rede Globo Nordeste, na interpretação de Nádia Maia. Essa música foi gravada por Petrúcio Amorim no disco “A FESTA DO FORRÓ” de 2000, (GPCD – 673); por Zé Ramalho no disco “NAÇÃO NORDESTINA” de 2000, (BMG 743.217.5467-2) e, por Maciel Melo nos seus discos “RETINAS”–Velas (11-V245) de 1997 e “ACELERANDO O CORAÇÃO” – (199.011.191 de 2001).
Um outro fato marcante foi sua participação no disco “DOMINGUINHOS E CONVIDADOS CANTAM LUIZ GONZAGA-2” de 1997, interpretando ao lado do mestre Dominguinhos a música “A VOLTA DA ASA BRANCA” (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) Velas (11. V247). Essa gravação também consta do disco “SÓ FORRÓ” (Maciel Melo e Outros) – Kuarup Discos (KCD-105) de 1998.
Ainda em 1997, Xangai gravou no seu disco “CANTORIA DE FESTA”, Kuarup Discos, (KCD – 091), a música “Não é Brincadeira” (Maciel Melo), - o mesmo Xangai voltou a gravar essa composição no disco de 2001 - “XANGAI E QUINTETO DA PARAIBA – BRISILERANÇA” – Kuarup discos – (KCD – 140), com participação especial do seu autor.
Em 1998 Elba Ramalho grava a música “PRA NINAR MEU CORAÇÃO” (Maciel Melo e Luís Fidélis) no CD “FLOR DA PARAÍBA”, (BMG 743.215.8703-2).
Ainda em 1998, a convite de José Mário Austrejésilo, então diretor da TV JORNAL DO COMERCIO, uma indicação da produtora Carmita Viana, tornou-se apresentador do programa “PÉ DE SERRA”, entrevistando poetas, cantadores, repentistas, cantores etc... que ia ao ar semanalmente, de maio a julho. Na capital pernambucana durante quatro anos consecutivos, 1998 a 2001.
Em 2003 Dominguinhos grava a música “A Lavadeira” (Maciel Melo e Rogério Rangel) no disco “CHEGANDO DE MANSINHO” – Velas (270.142).
Maciel Melo demonstra ser um artista consciente do seu potencial e responsabilidade como compositor e intérprete que vê sua carreira como um grande projeto de vida artística (e não como um amontoado de discos gravados e lançados e shows apresentados sem nenhum critério). Seu ‘olhar de poeta’ não o impede de perceber que o mundo das artes é também um mercado no qual se produz música e poesia para comercialização e consumo. Seguindo o exemplo dos mestres Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Gilberto Gil e outros, participa ativamente de todas as etapas de elaboração e produção dos seus discos (repertório, arranjos, instrumentação, estúdio, arte gráfica etc.), produz ele mesmo seus discos e shows sabendo quando, quanto e o que deve permanecer ou ser mudado em seu trabalho, conforme bem demonstra sua carreira discográfica:
- Em 1988/1989, o disco de estréia, LP “DESAFIO DAS LÉGUAS”, produção: Maciel Melo, assistente de produção: Márcia Moura.
- 1995 LP/CD “ALEGRIA DE NÓS DOIS” produção executiva da gravadora SomZoom, produção artística de Emanuel Gurgel e arranjos de Carlinhos Ferreira, seguiu regras que atendiam condições específicas daquele contexto, ficou fora do alcance do artista o aspecto da formatação estético/musical do disco, no entanto, os itens repertório e expressão interpretativa das músicas são excelentes.
- 1996 CD “JANELAS”, gravadora Velas, produção executiva: Maciel Melo; produção musical: Maciel Melo e Genaro.
- 1997 CD “RETINAS”, gravadora Velas, produzido por Maciel Melo; arranjos Maciel Melo e Lú Bahia.
- 1998 CD “JEITO MAROTO”, gravadora Kuarup Discos, produzido por Maciel Melo; arranjos de Genaro.
- 1999 CD “SINA DE CANTADOR”, gravadora Kuarup Disco, produção geral: Maciel Melo; concepção de arranjos e direção musical: Maciel Melo.
- 2000 CD “ISSO VALE UM ABRAÇO”, produzido por Maciel Melo e Genaro; arranjos e direção musical: Genaro.
- 2001 CD “ACELERANDO O CORAÇÃO”, produção e direção musical: Maciel Melo; arranjos: César Silveira, Genaro e Maciel Melo.
- 2002 CD “O SOLADO DA CHINELA”, Via Som Music, produção e direção musical: Maciel Melo.
- 2003 CD “DÊ CÁ UM CHEIRO”, Via Som Music, produção e direção musical: Maciel Melo; arranjos e execução de sanfonas: Genaro.
- 2006 CD “NASCENTE”, produção executiva: CHESF; produção e direção musical: Maciel Melo.
Alguns artistas que gravaram músicas de Maciel Melo:
- Quinteto Violado, Bira Marcolino, Flávio José, Santana (o cantador), Elba Ramalho, Novinho da Paraíba, Mastruz com Leite, Félix Porfírio, Waldonys, Carneiro do Acordeom, Amelinha, Fagner, Genaro, Petrúcio Amorim, Dominguinhos, Adelmário Coelho, Targino Gondim, Zé Ramalho, Eli Vieira, Bia Marinho, Trio Forrozão, Ladja Betania, Irah Caldeira, Xangai, Cristina Amaral, Duda da Passira, Aracílio Araújo, Nádia Maia, Mestre Zinho, Mazinho de Arcoverde, Reinivaldo Pinheiro etc.
Algumas participações especiais de Maciel Melo em projetos e/ou discos de outros artistas:
- “Dominguinhos e convidados cantam Luiz Gonzaga – 2” – na música: “A Volta da Asa Branca” (Zé Dantas e Luiz Gonzaga); “Chovendo Sinceridade” – Adelmário Coelho – na música: “Toque Sanfoneirinho”(Maciel Melo); “Baião Novo” – Targino Gondim, na música: “Carrapeta de Baton” (Maciel Melo); “A Festa do Forró” – Petrúcio Amorim, na música: “Meninos do Sertão” (Petrúcio Amorim e Maciel Melo); “Canto do Rouxinol” – Irah Caldeira, na música: “ Tributo a Zé Marcolino” (Maciel Melo); “A Todo Vapor” – Mazinho de Arcoverde, na música: “Retinas” (Maciel Melo e Virgílio Siqueira); “Nico de Pádua e Serginho Luz Cantam o Forrobodó Xote de Xico Bizerra”, na música: “Medo da Solidão” (Xico Bizerra); “Irah Caldeira Canta Maciel Melo”, nas músicas: “Pra Ninar Meu Coração” (Maciel Melo) e “Tampa de Pedra” (Maciel Melo); “Pedra de Amolar a Zé Marcolino”, na música: “Flor do Pajeu” (José Marcolino); “Recados – Haidée Camelo Interpreta Ruy de Morais e Silva”, na música: “Rosa” (Ruy de Morais e Silva); “Forrobodó Xote de Xico Bizerra – Cantadores da Nação de Seu Luiz”, na música: “Farelim de Nada” (Xico Bizerra); “Xangai e Quinteto da Paraiba – Brasilerança”, na música: “Não é Braincadeira” (Maciel Melo); “Vamos dar as Mãos” - Ivan Ferraz, na música: “Alegria de Nós Dois” (Heleno Louro); “No Chiado da Vassoura” – Reinivaldo Pinheiro: na música: “Aviso Prévio” (Maciel Melo).

José Manoel de Lemos Pereira.

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