Jessier Quirino
Carro-de-boi cheio é que canta
Para Maciel Melo, cabôco sertanejo de Iguaraci, cidadezinha do oitão norte de Pernambuco, a arte já veio no sangue. Logo nas primeiras chupetadas pegava o ritmo melódico da sanfona do seu pai Heleno Louro e nesse ritmo, se amoquecava, dormia e sonhava.
Hoje, com obra vasta e importante, esse cabôco sonhador é, inegavelmente, um dos nossos mais legítimos representantes; e sua música, com especial encanto, é um verdadeiro repositório das tradições matutas, sertanejas e nordestinas. Assim é Maciel Melo. Um talentão deste tamanhão!
O presente DVD, em formato de abraço, é um quadro vivo da sociologia de um povo a que o próprio Maciel pertence e que, como artista de primeira plaina da música e da poesia, sabe tão bem representar.
Num espetáculo grandioso realizado em Recife - cidade que escolheu pra quartel-general - esse Melo dos sertões levou para o mesmo palco artistas da fibra de Xangai, Silvério Pessoa, Flávio José, Petrúcio Amorim, Irah Caldeira, e seu irmão Marcone Melo, partindo da premissa que carro-de-boi cheio é que canta: Entre os cocões e o eixo, colocam-se pequenos pedaços de madeira (especialmente de pinhão-bravo, que é madeira boa pra ranger) denominadas de cantadeiras. Ainda mais: põe-se sebo pisado com carvão entre as cantadeiras e o eixo. Assim, quanto mais pesado o carro, mais as cantadeiras rangem e gemem bonito. E, ouvindo o ranger de longe, a gente sabe que é Maciel e corre pro abraço. Isso vale um abraço cumpade véi.
Saudações paraibanas Jessier Quirino