Ricardo Anísio
depoimentos
Ricardo Anísio: poeta, jornalista e radialista.

 
Multifaces de um cantador

Maciel Melo é um esmerilhador das emoções cantadas . Catalisador do versejar filosófico, e semeador das paisagens poéticas que nos redimem do caótico e rude abrasar dos sertões. Parece ter um armador no peito, para quem quiser se acostar e armar a rede de afetos. Mas também exibe uma chaga acesa que ponteia suas canções de melancolia. Afinal não há poesia sem conflito. A poesia é o escape da dor, e cabe ao poeta traduzi-la em beleza. O poeta é o candeeiro das trevas.
Seguindo o cheiro das flores e nunca deixando os amores pra depois, este compositor-cantador pernambucano é o alazão que sobrevoa o jorrar torrencial das alegrias e das desventuras tão bem escoltadas na caverna de Platão, que é o labirinto da alma. Neste CD em que ele pede um tempo ao forró para ameigar o cantador, a vida dá o mote para suas trovas de alegoria emocional, entre o mais lírico e o mais profundo.
Não mudaram o verso do caboclo sonhador, mas ele quebrou no dente um taco da literatura e se fez motivo pra falar. Não cantando que nem Vem-Vem aqui ele canta como o Assum Preto ou a Cotovia. Lembra-me o porvir das cigarras, que cantam para morrer, ou a paúra dos bluesman cortando os algodoais do Mississipi para constelarem-se ao Pajeú.
O fluxo venoso do cancioneiro tatua em Maciel Melo uma pétala de contentamento e ardor. Traz a senha sagrada dos que nasceram para cruzar as múltiplas vivências do menestrel. Um dia sendo a coruja que anuncia morte, outro dia sendo o rouxinol que alude a vida. Um transe bizarro entre carpideiras e anedotistas.
Ouvir esse feixe de canções aqui registradas é exercitar-se sob a asa rudimentar da teoria simplista que pretende verter os gênios nordestinos em caricaturas da Música Popular Brasileira. Na verdade somos o esboço da arquitetura no plenilúnio da canção brasileira. Maciel Melo é um dos mantenedores de classe desta tradição melódica e oral cujos signos estelares podem ter se acasalado nos céus, e ovulado o ventre da arte com pitadas de Angola, Nova Orleans, Santiago e Havana.
O cantar plangente do artista em questão se assobradou no bucolismo universal. É um cantar aldeão de multi-etnia. E mesmo assim, com todos os lampadários da delicadeza, ainda propõe a rebelião de Antônio Conselheiro e de Zumbi dos Palmares. Nós somos poucos, mas somos absurdamente férteis. Está tudo implícito e se precisa da terceira visão do guru Lonsang Rampa para banhar-se neste córrego de beleza. Se fosse fácil, não valeria a pena.

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